*Por Diogo Pereira, Tatuador profissional e artista visual

Construir uma carreira consistente na tatuagem em Portugal exigiu mais do que talento artístico. Exigiu método, leitura de contexto e adaptação a um mercado progressivamente mais regulado e exigente. Ao analisar o percurso profissional na tatuagem contemporânea, torna-se evidente que a consolidação desta atividade como setor económico acompanha um movimento mais amplo de profissionalização da economia criativa europeia, no qual Portugal se insere de forma cada vez mais estruturada.

O setor da tatuagem tem passado, ao longo da última década, por um processo consistente de profissionalização e consolidação institucional, tanto em mercados europeus como internacionais. Esse movimento acelerou-se de forma significativa nos últimos anos, acompanhando a maturação das indústrias culturais e criativas no contexto pós-pandemia. Dados atualizados da Comissão Europeia, publicados em 2024, indicam que estas indústrias mantiveram uma trajetória de crescimento sustentado e continuam a representar um dos segmentos com maior concentração de micro e pequenas empresas no continente, responsáveis por mais de 90% das operações ativas. Esse crescimento veio acompanhado de um reforço consistente das exigências regulatórias, particularmente em atividades ligadas a serviços personalizados e artísticos, como a tatuagem.

No plano técnico, a consolidação de uma carreira exige repetição, estudo anatómico, domínio de luz e sombra e uma compreensão profunda da pele como suporte permanente. No contexto atual, estilos que combinam rigor técnico e identidade autoral tendem a ganhar maior reconhecimento. O realismo black and grey destaca-se nesse cenário por responder a uma procura consistente por trabalhos duradouros, de elevada complexidade e forte componente artística. Tendências observadas em convenções e eventos internacionais do setor apontam para a valorização crescente desse tipo de abordagem, especialmente em projetos de médio e grande porte.

À medida que a maturidade técnica se desenvolve, surge uma segunda camada de exigência igualmente determinante: a gestão. Em Portugal, abrir e manter um estúdio envolve lidar com custos fixos elevados, cumprimento rigoroso de normas de biossegurança, licenciamento, organização de agenda e construção de reputação num mercado relativamente pequeno, mas altamente competitivo. Relatórios recentes da União Europeia reforçam que a sustentabilidade das atividades criativas depende cada vez mais da adoção de práticas empresariais consistentes, assentes em controlo financeiro, processos claros e profissionalização contínua da operação.

Outro fator estruturante é a internacionalização do público atendido. O mercado português caracteriza-se por uma circulação constante de pessoas de diferentes nacionalidades, o que impacta diretamente a atuação dos profissionais do setor. Esse contexto exige sensibilidade cultural, comunicação em múltiplos idiomas e um nível elevado de comparação entre padrões técnicos e artísticos. A tatuagem deixa, assim, de ser apenas um serviço de âmbito local e passa a integrar uma dinâmica global de consumo criativo.

Ao observar o setor de forma mais ampla, torna-se evidente que a longevidade na tatuagem está menos associada a modismos e mais à capacidade de adaptação. O aumento da visibilidade proporcionado pelas plataformas digitais ampliou o alcance do trabalho artístico, mas também elevou significativamente o nível de exigência do público. Nesse cenário, consistência passa por qualidade técnica, ética profissional e atualização constante, tanto artística quanto operacional.

Hoje, ao analisar a evolução da tatuagem enquanto atividade profissional, torna-se claro que uma carreira sustentável se constrói como qualquer outro projeto de longo prazo. Envolve investimento contínuo, leitura de mercado, especialização e gestão de riscos. A arte permanece no centro do processo, mas é sustentada por decisões racionais e por uma estrutura sólida. É essa combinação que permite transformar a tatuagem numa atividade reconhecida, sustentável e alinhada com as transformações contemporâneas da economia criativa.

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