A crise da convivência começa na porta de casa

A crise da convivência começa na porta de casa

Barulho, grupos de WhatsApp, animais de estimação, vagas de garagem e assembleias cada vez mais tensas mostram que os condomínios se tornaram um retrato das dificuldades de convivência da sociedade brasileira. Especialista defende que aprender a viver em comunidade será uma das habilidades mais importantes das próximas décadas.

Durante muito tempo, morar em condomínio significava compartilhar espaços comuns, respeitar regras de convivência e participar das decisões coletivas. Hoje, porém, a realidade parece cada vez mais distante desse ideal. Discussões por causa de vagas de garagem, barulho, reformas, animais de estimação, uso das áreas comuns, entregas, grupos de WhatsApp e assembleias marcadas por conflitos tornaram-se situações frequentes em empreendimentos de todos os perfis.

Mais do que problemas isolados, esses episódios revelam uma transformação no comportamento da sociedade. O condomínio, que reúne diariamente pessoas com diferentes histórias, valores, gerações e estilos de vida, passou a funcionar como um verdadeiro laboratório das relações humanas.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 84% da população brasileira vive em áreas urbanas. A verticalização das cidades fez com que milhões de brasileiros passassem a dividir espaços coletivos, aumentando os desafios relacionados à convivência e ao respeito às diferenças.
Para a advogada, síndica profissional e especialista em gestão condominial Vanessa Munis, os conflitos observados dentro dos condomínios refletem uma mudança muito maior do que questões administrativas.

“O condomínio não cria conflitos. Ele revela como a sociedade aprendeu, ou desaprendeu, a conviver. Ali aparecem comportamentos que também vemos nas empresas, nas famílias e nas redes sociais: pouca disposição para o diálogo, dificuldade em ouvir opiniões diferentes e uma tendência crescente de transformar qualquer divergência em confronto.”

Advogada há mais de 21 anos, pós-graduada em Direito Tributário e Gestão de Pessoas, especialista em condomínios e síndica profissional certificada pela Universidade de São Paulo (USP), Vanessa atua há mais de 13 anos na gestão condominial. Ao longo da carreira, acompanhou de perto a evolução do setor e percebeu que os maiores desafios da administração raramente estão ligados apenas à infraestrutura dos empreendimentos.
“O elevador quebra e pode ser consertado. Uma infiltração tem solução. Um problema financeiro pode ser reorganizado. O que realmente exige preparo é administrar expectativas, emoções, frustrações e interesses diferentes convivendo no mesmo espaço.”

O individualismo desafia a vida em comunidade

A sociedade brasileira passou por profundas transformações nas últimas décadas. Famílias menores, aumento das pessoas que vivem sozinhas, crescimento do trabalho remoto, envelhecimento da população e a presença constante das redes sociais mudaram a forma como as pessoas se relacionam.

Dentro dos condomínios, essas mudanças aparecem diariamente.

Há moradores que desejam mais silêncio, enquanto outros esperam liberdade para utilizar as áreas comuns. Há quem defenda regras mais rígidas e quem considere qualquer limitação uma interferência na vida privada. Ao mesmo tempo, ferramentas como aplicativos de mensagens aceleram a circulação de informações, mas nem sempre favorecem o diálogo.

“Hoje é comum que uma reclamação seja feita primeiro em um grupo de WhatsApp e só depois chegue oficialmente ao síndico. Muitas vezes as pessoas preferem expor um problema para dezenas de vizinhos em vez de conversar diretamente com quem pode resolvê-lo. Isso aumenta a tensão e dificulta a construção de soluções.”

Conviver exige participação

Outro comportamento observado por Vanessa é a diminuição do envolvimento dos moradores nas decisões coletivas.
Embora muitos condomínios enfrentem baixa participação em assembleias, as cobranças sobre a administração continuam crescendo.

“Existe uma contradição interessante. As pessoas querem ser ouvidas, mas nem sempre querem participar dos espaços em que as decisões são tomadas. Conviver em comunidade exige corresponsabilidade. Não basta cobrar. É preciso participar.”

Segundo ela, esse fenômeno não acontece apenas nos condomínios.

“Estamos vivendo uma sociedade em que todos têm voz, mas poucos estão dispostos a construir consensos. A convivência exige escuta, negociação e respeito aos limites. Essas habilidades precisam ser desenvolvidas.”

O condomínio como escola de cidadania

Para Vanessa Munis, os condomínios representam hoje um dos ambientes mais ricos para compreender as transformações do comportamento humano.

É nesse espaço que pessoas de diferentes gerações, profissões, culturas e estilos de vida compartilham diariamente decisões que impactam a vida coletiva.

“Os condomínios são pequenas comunidades. Quando conseguimos construir respeito, diálogo e confiança nesses ambientes, fortalecemos também a forma como convivemos na sociedade.”

Essa reflexão é um dos pilares do livro “A Arte de Se Posicionar no Ecossistema Condominial”, lançado por Vanessa Munis. Na obra, a autora propõe uma discussão que vai além da gestão de edifícios e aborda temas como posicionamento, liderança, comunicação, responsabilidade coletiva e construção de comunidades mais saudáveis.
“O livro nasceu da percepção de que administrar condomínios nunca foi apenas administrar patrimônio. É administrar pessoas. E, quando entendemos isso, percebemos que os desafios da convivência começam muito antes das assembleias. Eles começam na maneira como cada um escolhe ocupar o espaço coletivo.”

Em um momento em que cidades crescem, as relações se tornam mais digitais e o convívio entre pessoas com diferentes perfis é cada vez mais intenso, aprender a viver em comunidade pode deixar de ser apenas uma necessidade dos condomínios para se tornar uma das competências mais importantes da vida contemporânea.
Perfeito. Como é para a Vanessa, eu faria um LinkedIn que não resumisse a matéria. O LinkedIn precisa ter opinião, provocar reflexão e mostrar o posicionamento dela. Sem cara de IA, sem frases prontas e com uma escrita mais próxima de um artigo de liderança.

(Fotos: iStock)

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