Pesquisa inédita da iHealth Clinical Insights aponta maior concentração de casos entre mulheres de 60 a 79 anos e reforça desafio do diagnóstico precoce diante de sintomas muitas vezes inespecíficos
Uma pesquisa inédita da iHealth Clinical Insights lança luz sobre a presença do câncer de ovário na rede hospitalar brasileira e reforça um dos principais desafios da doença: seus sinais frequentemente silenciosos ou confundidos com outras condições clínicas. O levantamento identificou 16.943 mulheres com câncer de ovário presente, histórico ou em investigação em uma base nacional composta por aproximadamente 3,1 milhões de pacientes atendidos em 52 instituições de saúde distribuídas por 15 estados brasileiros.
A análise, realizada entre 2021 e 2025, considera um universo superior a 1,8 milhão de mulheres e mostra que 0,92% delas apresentavam registros relacionados à doença. A maior concentração foi observada entre mulheres de 60 a 79 anos, faixa que representa 40,5% dos casos. Em seguida aparecem pacientes entre 40 e 59 anos, com 37,2%.
Entre os sintomas mais mencionados nos prontuários ao longo da jornada clínica, a dor lidera com ampla diferença, presente em 69,1% dos registros. Também aparecem edema (31,3%), sangramento (27,3%), dispneia (24,1%), diarreia (22,6%), ascite (21,8%) e constipação (17,7%).
Para o ginecologista e obstetra Dr. César Patez, do Espírito Santo, um dos maiores obstáculos no câncer de ovário está justamente na dificuldade de reconhecimento precoce dos sinais.
“O câncer de ovário costuma representar um desafio porque os sintomas podem parecer inespecíficos e se confundir com alterações gastrointestinais, urinárias ou hormonais. Dor abdominal persistente, sensação de inchaço, alteração intestinal, desconforto pélvico e aumento do volume abdominal não devem ser ignorados, especialmente quando persistem ou mudam o padrão habitual da paciente”, explica.
Outro dado que chama atenção no levantamento é a coexistência de outras condições de saúde. Entre as mulheres identificadas, 44,1% apresentavam hipertensão arterial, 23% diabetes mellitus e 19,3% histórico de tabagismo. Também houve menções frequentes a câncer de mama, ansiedade, anemia e metástases.
Os dados revelam ainda uma intensa jornada assistencial. Quimioterapia aparece em 42% dos casos, enquanto exames e procedimentos como tomografia, laparotomia, ultrassonografia, mamografia, biópsia e histerectomia surgem com alta frequência.
O ginecologista e obstetra Dr. Paulo Noronha destaca que ainda existem muitos mitos envolvendo prevenção e fatores de risco da doença, especialmente relacionados à gestação e ao HPV.
“Parto normal não é uma vacina contra câncer de ovário, e cesárea não causa câncer de ovário. O efeito protetor observado está mais relacionado ao histórico reprodutivo da mulher, como ter engravidado, ter tido filhos e amamentado, fatores que reduzem o número de ovulações ao longo da vida”, esclarece.
Segundo ele, outra confusão comum envolve a vacina contra HPV.
“A vacina contra HPV é extremamente importante, mas principalmente para prevenção do câncer de colo do útero e de outros tumores relacionados ao vírus. O câncer de ovário não é considerado um câncer HPV-dependente, então não podemos tratá-la como uma vacina de prevenção do câncer de ovário”, afirma.
Sem um exame de rastreamento populacional tão consolidado quanto o Papanicolau ou a mamografia, especialistas reforçam a importância da observação dos sintomas e do acompanhamento ginecológico regular.
“A principal recomendação é não negligenciar sintomas persistentes e manter acompanhamento ginecológico em dia. Também faz diferença investir em hábitos saudáveis, alimentação equilibrada, sono adequado e atividade física. Informação e atenção aos sinais do corpo continuam sendo grandes aliadas”, orienta Dr. Paulo Noronha.
Para Karlyse C. Belli, Diretora de Dados da iHealth, o levantamento ajuda a compreender a complexidade da jornada dessas pacientes em escala nacional, permitindo observar sintomas recorrentes, biomarcadores, comorbidades e procedimentos ao longo do cuidado.
Segundo a executiva, a análise reforça a importância de um acompanhamento estruturado, multidisciplinar e apoiado por evidências para ampliar precisão clínica e apoiar decisões assistenciais.
Sobre a pesquisa
O levantamento foi realizado pela iHealth Clinical Insights com base em aproximadamente 3,1 milhões de pacientes atendidos em 52 instituições de saúde, distribuídas em 15 estados brasileiros, contemplando as cinco regiões do país, entre os anos de 2021 e 2025.
(Foto: Inteligência Artificial)